"...eu vinha falando da pintura do natural, acordar cedinho, sair para o campo em busca de 'locações','cortes', cenas com cores e composições inéditas. Na verdade saímos em busca de um quadro ideal - algo já existente em nossa imaginação de forma turva, nebulosa. Saímos em busca da revelação dessa imagem virtual e do seu desembaçamento. Alguém disse que o pintor pinta um único quadro durante toda a sua vida. É isso, tentamos o quadro que mais se identifique com os arquétipos mentais que carregamos a vida toda. Embora sejam muitas imagens, há um conjunto de cores comum a todas, há uma distribuição de massas comum a todas - uma composição que se busca por toda a vida. O que estou dizendo não se refere a obras pintadas em série, de modo industrial, para comercializar por baixos preços, ou até mesmo por altos preços! Não, não é isso! A busca pelo ideal não limita a diversidade de tentativas, a variação de paletas, de temas, de materiais, de tudo!
Ao contrário, se repetimos sempre a mesma solução como fórmula definitiva perdemos o sentido de procura, de tentar o encontro com a arte, com a perfeição! Que coisa patética a repetição, o plágio de si mesmo! Copiar os outros é enriquecedor, mas a si mesmo é um horror! Será que alguém acredita mesmo ter pintado o quadro ideal? Não vale a opinião dos arautos da anti-arte, aqueles que 'mataram' a pintura e a literatura usando a desculpa que tudo já havia sido feito! Daí surgiu o 'tudo é arte', eu diria 'tudo' é idiotice!
O tudo é igual ao nada. Ambos não existem! Vou pintar pois estou cansado só de me lembrar desses bobalhões, profetas do ontem, escravos de doutrinas inibidoras da razão e principalmente da liberdade..."
"Marinha" - óleo sobre tela - 19X24 - ano de 2010 - coleção particular