"...o costão da ilha da Boa Viagem é um ícone retratadíssimo da cidade de Niterói - os primeiros registros foram feitos pelos aquarelistas cartógrafos das expedições exploradoras portuguesas, francesas e outras que aqui estiveram logo depois do descobrimento no séc. XVI e durante os séculos seguintes. Na minha infância e juventude frequentávamos a praia da Boa Viagem, nadávamos nas águas claras do entorno da ilha, cujo acesso é feito por uma ponte sobre um istmo que fica submerso nas marés altas. O patamar que se vê no quadro é conhecido como 'Plataforma' - subíamos até lá por uma escada entalhada na encosta e revestida de tijolos de barro do tempo dos portugueses. Os mais corajosos mergulhavam lá de cima, poucos de cabeça, a maioria em pé. Numa ocasião um colega pulou e a maré estava meio baixa, bateu com os pés no fundo pedregoso e cheio de ouriços, saiu da água urrando de dor, a sola dos pés parecia uma vassoura de piaçavas, tantos eram os espinhos. Eu ajudei a retirar a maioria deles utilizando a ponta de um anzol que tínhamos levado para pescar. Lá pescávamos siris e pequenos peixes, catávamos ostras e mexilhões, remávamos pequenos barcos de dois bicos, conhecidos como caícos. Alguns mergulhavam em busca de badejos, garoupas ou polvos, pescados com arpão. Fica difícil relatar tudo o que se fazia, tantas eram as opções que esse paraíso tropical nos oferecia. O trecho retratado é o da face oeste da ilha, ao fundo se vê o morro do Corcovado no Rio de Janeiro - como se não bastassem todas essas maravilhas, ainda temos como paisagem a Cidade Maravilhosa..."
Original em óleo sobre tela do ano de 2006 – Acervo particular